Uma breve introdução à produção mais limpa

Uma breve introdução à produção mais limpa.

 

Quando falamos em indústrias e processo produtivo muitas vezes associamos instintivamente à geração descontrolada de poluentes, vendo este setor como o maior antagonista das causas ambientais. Somado a isso, frequentemente as indústrias enxergam as questões ambientais como custos altos a serem contabilizados no orçamento final da empresa, para que o resíduo, ou a emissão gerada possa ser tratada, para assim não gerar um gasto ainda maior com penalidades judiciais por conta de não estar conforme à legislação ambiental. 

Porém, essa visão dicotômica não deveria ser tão axiomática, pois as causas ambientais, eficiência na produtividade e retorno econômico, além de poderem  coexistir, representam possibilidades para uma produção mais limpa (P+L). Segundo KIPERSTOK, et al.(2002) no livro “Prevenção da poluição”:

O que são resíduos, senão matéria-prima mal aproveitada? O que são esgotos, senão um líquido composto de 99,95% de água (mal utilizada) e 0,05% de material sólido arrastado por esta? Pelo menos 50% das nossas emissões decorrentes de queima de combustível decorrem de perdas energéticas e desperdícios provocados pelas tecnologias utilizadas ou inadequação de práticas operacionais.

 

Convencionalmente, muitas tecnologias são voltadas exclusivamente para o tratamento dos resíduos e das emissões já existentes nos processos produtivos, sendo chamadas de Técnicas Fim-de-tubo ou “end of pipe”. Porém, a P+L apresenta uma visão mais ampla: integrar continuamente estratégias econômicas, tecnológicas e ambientais ao processo produtivo. Esta tem como objetivo reduzir a geração e periculosidade dos resíduos e emissões na fonte, por meio da otimização do uso das matérias primas, energia e água, utilizando as técnicas de Fim-de-Tubo somente quando findam-se as oportunidades de redução na fonte. Desta forma, é gerado o casamento entre os benefícios ambientais e econômicos associados ao processo produtivo. Vemos um comparativo entre Produção mais Limpa e Técnicas Fim-de-tubo na Figura 1.

 

 

 

Figura 1- Comparação entre Produção mais Limpa e Técnicas Fim-de-tubo

Fonte: SENAI (2003)

 

Na P+L as práticas preventivas como: Modificação de tecnologias, substituição de matérias primas, modificação do produto focado no processo e no ciclo de vida e boas práticas de gestão, possibilitam que a empresa reduza custos com matéria prima e com a produção. Desta forma, focando em não gerar o resíduo em detrimento de tratar o que foi gerado (OLIVEIRA, 2013, p. 18). 

Na Figura 2 temos um fluxograma mostrando as técnicas utilizadas dentro da produção mais limpa, separada por níveis de prioridade. Primeiramente temos o nível 1, no qual estão as práticas de não geração (neste nível a figura contém um termo em inglês “housekeeping”, que segundo o Mundo Carreira :  é uma ferramenta utilizada nas empresas, que tem o objetivo de criar um ambiente agradável que gere um retorno produtivo dos funcionários, este termo está associado às boas práticas de gestão), em sequência o nível 2 onde estão presentes as práticas de reintegração dos resíduos gerados a produção, e por fim, caso seja inviável essa reintegração chegamos ao nível 3 que consiste na reciclagem externa. 

 

Figura 2- Fluxograma das técnicas utilizadas na P+L

Fonte :CNTL SENAI (2015)

 

Existe uma metodologia que é aplicada para instaurar a P+L, contendo 5 (cinco) fases, visualizados na Figura 3, e essas divididas em diversos passos: 

  1. Planejamento e Organização, nesta fase é onde ocorre o comprometimento da gerência e dos funcionários, previamente conscientizados da necessidade da aplicação  P+L, definindo assim uma equipe para o projeto(chamado de ecotime), assim estabelecendo objetivos e verificando barreiras e soluções. 

  2. Pré-avaliação, nesta fase é construído um fluxograma do processo produtivo com entradas e saídas que serão avaliadas para determinação do foco de P+L.  

  3. Avaliação, é onde será considerada as oportunidades de P+L e posteriormente passarão para a próxima fase.  

  4. Estudo de viabilidade, nesta fase serão consideradas as oportunidades viáveis e os resultados possíveis após avaliações: preliminares, econômicas, ambientais e técnicas.

  5. Implementação, esta última fase consiste na aplicação das oportunidades escolhidas após o passo anterior e o seu acompanhamento para garantir a continuidade dessas ações.    

 

Figura 3- Passos para a aplicação da P+L

Fonte:CNTL SENAI-RS (2003) 

 

Em um mundo que cada vez mais enxerga a importância da preservação ambiental, a P+L traz uma perspectiva diferente da tradicional para os resíduos e a produção, dialogando com pautas de comum interesse entre as questões ambientais e a produção, trazendo competitividade, inovação e responsabilidade ambiental para o setor produtivo (BACARJI,HALL,WERNER, 2009, p.2).

 

Texto de: Thalles Purificação

 

Referências

  

BACARJI, A. G; HALL, R. J;  WERNER, E. M. Produção Mais Limpa: Conceitos e Definições Metodológicas. SEGeT – Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia. 2009.

 

Centro Nacional de Tecnologia Limpa (CNTL). O que é produção mais limpa?. Disponível em:<https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1751789/mod_resource/content/...f>. Acesso em : 30 de mar. 2021.

 

Centro Nacional de Tecnologia Limpa (CNTL). Cinco fases da implantação de técnicas de produção mais limpa. (Série Manuais de produção mais limpa). Senai-Rs, 2003.

 

KIPERSTOK, Asher et al. Prevenção da poluição. Brasília: SENAI/DN, 2002. 

 

MUNDO CARREIRA. O que é e pra que serve o programa housekeeping?.Disponível em:<http://mundocarreira.com.br/sem-categoria/o-que-e-e-pra-que-serve-o-programa-housekeeping/#:~:text=Housekeeping%20%C3%A9%20uma%20ferramenta%20utilizada,limpeza%20e%20arruma%C3%A7%C3%A3o%20das%20salas.> Acesso em : 30 de mar. 2021.

OLIVEIRA, Fábio Ribeiro de. Produção mais limpa no contexto da sustentabilidade. oportunidades em uma indústria moveleira de Contagem/MG. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Ouro Preto. Ouro Preto/MG. p.101. 2013