Qual a importância da arborização nas cidades?

Qual a importância da arborização nas cidades?

 

Em 1500, Pero Vaz de Caminha, escritor português, escreveu a célebre frase: Nessa terra, em se plantando, tudo dá. O escritor se referia ao bioma da Mata Atlântica que, segundo a World Wide Fund For Nature (WWF-Brasil), possui somente 7% da sua cobertura original. No século XVI, este bioma ainda não havia sido extensamente explorado, logo, tinha uma grande contribuição para o ambiente da época. Após sua exaustiva exploração, será que essa vegetação ainda é importante para as cidades? 

 

Nas grandes cidades há um fenômeno denominado de Ilhas de Calor Urbana (ICU). Esse termo se refere ao maior aquecimento do centro de uma cidade, em comparação à sua região mais periférica ou próxima a parques. Mas, se recebem a mesma incidência solar, por que uma região tem maiores temperaturas? Este fenômeno ocorre, dentre outros fatores, por causa da redução arbórea das áreas centrais.

 

As árvores não atuam somente para a melhoria da paisagem de um ambiente, elas são importantes reguladoras da temperatura, irradiação solar, umidade e da poluição do ar. A sua copa atua como uma barreira solar natural. As suas folhas, ao interceptar os raios solares, impedem o aquecimento do entorno, como é possível ver na Figura 01. Dessa forma melhoram o microclima, ajudando também na diminuição das ICU. 

 

Figura 01: Redução da temperatura na sombra da árvore

Fonte: Árvore, ser tecnológico (2020)

 

De acordo com Marcaro (2005)

 

O controle da radiação solar, associado ao aumento da umidade relativa do ar, faz com que a variação da temperatura do ar seja menor, reduzindo a amplitude térmica sob a vegetação, sendo maior durante o verão, pois a densidade foliar e a evapotranspiração das plantas são mais intensas. A amplitude térmica sob grupamentos é sempre menor que sob as árvores isoladas (MARCARO, 2005, p. 2).

 

Ao retirar a cobertura vegetal nativa, irá ocorrer o aumento da absorção e retenção de calor na superfície e consequente  diminuição da evapotranspiração. E, tem-se o aumento da temperatura no centro da cidade e também a redução da dispersão dos poluentes, como consequência da baixa evaporação (BERNARDES et al., 2012).

 

Para Londe e Mendes (2014), as áreas verdes no ambiente urbano contribuem para o desenvolvimento social e, além disso, levam também ao bem-estar físico e emocional, por permitirem a aproximação do homem com o ambiente natural. É o homem se reconectando com todo o ambiente em sua volta, não mais como uma espécie isolada da evolução, mas sim conectada e em equilíbrio com todas as outras existentes.

 

Essas áreas também propiciam a prática de exercícios físicos, que trazem benefícios fisiológicos imediatos e a longo prazo. Os benefícios imediatos estão associados a regulação dos níveis de glicose sanguínea, estímulo à liberação de adrenalina e noradrenalina e a melhora no sono. E a melhora no funcionamento cardiovascular, o aumento da resistência e fortalecimento muscular, melhoria na flexibilidade dos músculos, melhora na coordenação motora e na velocidade de movimento, são alguns dos benefícios a longo prazo (GOBBI, 1997).

 

É notável também, que os centros urbanos possuem alguns fatores que contribuem para o agravamento do nível de “stress” da população, são estes: ruídos, maiores índices de temperatura, poluição e baixa umidade do ar. As áreas verdes funcionam como lugares de recreação e lazer e podem servir para neutralizar os fatores urbanos estressantes, citados anteriormente (COSTA, 2010).

 

Entretanto, somente plantar árvores não resolve todos os problemas ambientais de uma cidade, inclusive pode agravá-los, causando desequilíbrios ambientais, quando não é feito de maneira correta. A falta de conhecimento dos gestores municipais quanto ao plantio de espécies exóticas pode acarretar em desequilíbrios ecológicos, pois caso essas espécies sejam invasoras, elas “ameaçam a diversidade biológica e os serviços ecossistêmicos” (IBAMA, 2019). 

 

De acordo com Souza (2011)

 

Tal fato se deve, provavelmente, ao desconhecimento das espécies nativas e à comodidade de sugestão de espécies tidas como bem adaptadas em diversos lugares. Com isso, ocorre a uniformização das paisagens de diferentes cidades, reduzindo a biodiversidade no meio urbano e dissociando-o do contexto ambiental em que se insere (MACHADO et al., 2006). (SOUZA, 2011, p. 1254).

 

Sendo assim, as árvores nativas são mais adaptadas ao solo e ao clima, possuem maior probabilidade de floração e produção de frutos saudáveis e conservam a fauna local (CECCHETTO et al., 2014).

 

Logo, ao se pensar em tornar uma cidade mais arborizada é preciso antes de tudo planejar, realizando um plano de arborização, que será particular para cada a cidade. Para Costa (2010) a maioria das cidades têm alguma forma ou instrumentos de planejamentos, que influenciam na quantidade e na qualidade dos espaços verdes, como o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano).

 

Se você se interessou sobre esse tema, busque conhecer um pouco sobre o plano de arborização da sua cidade. Para os residentes em Salvador, é possível encontrar no site da Secretaria de Sustentabilidade e Resiliência (SECIS), o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), do município de Salvador, decretado na lei nº 9187 de 2017. Bons estudos!

 

 

 

Referências: 

ALEOMIR, MACIEL. Nesta terra, em se plantando, café dá? Disponível em: https://www.cnabrasil.org.br/artigos-tecnicos/nesta-terra-em-se-plantand.... Acesso em: 18 jun. 2021.

BERNARDES, FLAVIANE; MENDES, PAULO. Ilha de calor urbana: o efeito das cidades no clima. Disponível em:URBANIZAÇÃO E SUA INFLUÊNCIA NO AUMENTO DA TEMPERATURA MÉDIA NO MUNICÍPIO DE UBERLÂNDIA/MG Disponível em: <https://periodicos.ufam.edu.br/index.php/revista-geonorte/article/downlo.... Acesso em: 18 jun. 2021.

BUENO, PAOLA . Ilha de calor urbana: o efeito das cidades no clima. Disponível em: https://www.tempo.com/noticias/ciencia/ilha-de-calor-urbana-o-efeito-das.... Acesso em: 18 jun. 2021.

CECCHETTO, CARISE; CHRISTMANN, SAMARA; OLIVEIRA, TARCÍSIO. Arborização urbana: importância e benefícios no planejamento ambiental das cidades. XIV Seminário Internacional de Educação no Mercosul, 2014. Disponibilidade <https://www2.ufrb.edu.br/petmataatlantica/images/PDFs/ARTIGO---ARBORIZACAO-URBANA-IMPORTANCIA-E-BENEFICIOS-NO-PLANEJAMENTO-AMBIENTAL-DAS-CIDADES-1.PDF>.

COSTA, C. S. Áreas Verdes: um elemento chave para a sustentabilidade urbana. Arquitextos, São Paulo, v. 11, 2010, 126 p. COSTA, R. G. S.; COLESANTI, M. M. A Contribuição da Percepção Ambiental nos Estudos das Áreas Verdes. RA´EGA . Curitiba: UFPR, v.22, p. 238-251, 2011. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.126/3672. Acesso em: 05 de jul. 2021.

GAMBARINI, ADRIANO. Mata Atlântica luta pela sobrevivência. WWF-Brasil Disponível em: https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/dia_do_meio_ambient.... Acesso em: 18 jun. 2021. 

GOBBI, S. Atividade Física para pessoas idosas e recomendações da Organização Mundial de Saúde de 1996. Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, Pelotas/RS, v. 2, n. 2, p. 41-49, 1997. Disponível em: https://rbafs.org.br/RBAFS/article/view/1121/1304. Acesso em: 05 de jul. 2021.

MASCARO, JUAN; DIAS, ARIANE; GIACOMIN, SUELEN. Arborização Pública como Estratégia de Sustentabilidade Urbana. Disponibilidade <https://www.usp.br/nutau/CD/29.pdf>.

SALVADOR. (org.). Plano Diretor De Arborização Urbana. Disponível em: http://www.sustentabilidade.salvador.ba.gov.br/legislacao/plano-diretor-.... Acesso em: 18 jun. 2021

SOUZA, ANDERSON; FERREIRA, ROBÉRIO; MELLO, ANABEL; PLÁCIDO, DÉBORA; SANTOS, CARLA; GRAÇA, DALVA; JÚNIOR, PEDRO; BARRETTO, SORAIA; DANTAS, JOLLY; PAULA, JOSÉ; SILVA, THIAGO; GOMES, LUCAS.  Diagnóstico quantitativo e qualitativo da arborização das praças de Aracaju, SE. Revista Árvore [online]. 2011, v. 35, n. 6 [Acessado 18 Junho 2021] , pp. 1253-1263. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0100-67622011000700012>. Epub 13 Fev 2012. ISSN 1806-9088. https://doi.org/10.1590/S0100-67622011000700012.