Impactos da indústria da moda no meio ambiente

Impactos da indústria da moda no meio ambiente

Ao longo da história, a moda foi considerada uma manifestação cultural e um retrato das sociedades ao expressar seus hábitos, costumes e valores. Entretanto, essa visão veio sendo modificada com a inserção da ideia do "Fast Fashion", ou moda rápida em português, onde a fabricação de roupas em larga escala seguindo tendências, focada na padronização das mesmas e no consumo em massa, com consequente diminuição de qualidade e durabilidade são aspectos característicos desse ciclo produtivo.

Atualmente, a indústria da moda é responsável pela produção desenfreada de peças de roupas e calçados que estão em consonância com o mercado global ao abastecer as maiores redes de lojas varejistas, e que se atualizam constantemente lançando novos produtos ao mercado. Estima-se que marcas responsáveis por este abastecimento despejam cerca de 80 bilhões de peças de vestuário por ano. Nesse contexto, os impactos socioambientais inerentes a processos de fabricação passam facilmente despercebidos sob os olhares do consumidor final. Então, no cenário onde o consumo das peças de vestuário é ditado pelo valor estético e as indústrias não medem esforços para manter o padrão consumista e impulsivo do consumidor, o debate é sobre como esse conceito pode ser incorporado buscando rever hábitos e estilos de vida enraizados na sociedade.

Os impactos da produção tradicional de roupas em larga escala no meio ambientes são prejudiciais e se estendem por todo o ciclo produtivo. Veja abaixo um pouco mais sobre como esse trajeto acontece, desde a produção ao descarte e quais impactos são gerados no processo:

 Preparação e extração da matéria prima

Essa etapa engloba os procedimentos realizados pelos produtores para que a matéria seja obtida e utilizada a fim de ser transformada no produto final. Entretanto, pode trazer danos em função do uso de agrotóxicos, contaminação do ambiente -solo, água ou ar, alta demanda por recursos hídricos e energéticos, criação de animais em condições precárias e/ou desmatamento e destruição de habitats;

Processo produtivo

Aqui a matéria prima ganha a forma do produto final. São utilizados  recursos hídricos e energéticos - e também desperdiçados. No processo produtivo do algodão, por exemplo, é levado em conta o combustível das máquinas agrícolas que realizam a colheita, a energia das máquinas de fiação e dos processos de tingimento, lavagem, secagem e ferro de passar;

Transporte

Envolve o seu deslocamento e está relacionado principalmente com a poluição do ar a depender do modal de transporte utilizado;

Comercialização

Abarca as ações realizadas pelas lojas para que o produto possa ser comercializado em bom estado e neste momento, muitas das peças são descartadas antes de chegar no mostruário;

Uso e pós-compra

Onde a lavagem, secagem e zelo pela vestimenta se acontecerem  descuidadamente podem acarretar em impactos ambientais complexos, a exemplo da liberação de microplásticos em função da lavagem de roupas sintéticas;

Descarte

Quando o produto não é mais utilizado e se dispõe em lixão ou aterro sanitário mesmo que a sua vida útil não tenha se esgotado. No contexto brasileiro,  a geração dos resíduos têxteis representa 175.000 toneladas/ano, onde somente 36.000 toneladas são reaproveitadas, devido ao curto comprimento das mesmas, para fazer barbantes, novas peças de roupas e fios, e também para a fabricação de estopas, colchões e mobiliários.

 

Fonte: A Product Life Cycle Approach to Sustainability, Levi Strauss & Co., 2011.

 

A aderência do Fast Fashion no atual conceito de moda também implica em consequências diretas relacionadas às pessoas que estão inseridas nesse ciclo produtivo, uma vez que a ideia de sustentabilidade se apresenta como um equilíbrio entre três esferas do desenvolvimento: social, econômico e ambiental. A tendência pela produção rápida e com custos menos elevados faz com que o perfil do trabalhador tenha mão de obra mais barata e ao mesmo mais produtiva gerando ambientes impróprios e condições insalubres de trabalho e trazendo crianças à situações de  ilegalidade.

A iniciativa mais importante para que as mudanças nesse processo venham a acontecer deve partir do consumidor final. Como as ações individuais podem atuar minimizando essa problemática? A conscientização deve vir em primeiro lugar, seguida de uma relação participativa com a empresa, sempre buscando analisar a procedência daquilo que for consumido. As escolhas devem acontecer de modo a prezar pela qualidade, durabilidade, utilidade e economia. Boas dicas são: evitar descartar roupas rapidamente ao doá-las, compartilhá-las ou vendê-las em brechós; reutilizar e/ou reciclar a fim de produzir novas peças e acessórios e analisar o tipo de tecido ou componentes utilizados sendo a escolha final aquela em que representar menos impactos socioambientais.  

As empresas também devem zelar pela transparência para com o consumidor, de modo a elucidar como acontece o seu ciclo de fabricação, quais são seus custos ambientais envolvidos e quais destes estão sendo minimizados, neutralizados ou evitados. O mercado varejista conta com a Certificação da ABVTEX, Associação Brasileira do Varejo Têxtil, que busca alcançar a responsabilidade social e o crescimento sustentável no ramo têxtil. Essas ações de melhoria também podem ser desenvolvidas através da reutilização de matéria prima, logística reversa e uso da tecnologia, visando a otimização do processo produtivo e redução de desperdícios, custos financeiros e ambientais.

Como podemos observar, o impacto da moda no meio ambiente é de suma importância e cabe a nós, por meio das nossas escolhas enquanto consumidores, visar pelo meio menos destrutivo. Foi por isso que o PET ESA montou um mapa com os principais brechós em Salvador, para que possamos fechar o ciclo do impacto de forma mais sustentável, contribuindo com a economia local, com a não degradação ambiental e com o trabalho justo .

 

Fonte:

A indústria têxtil no Brasil: Uma revisão dos seus impactos ambientais e possíveis tratamentos para os seus efluentes. Érica Janaina Rodrigues de Almeida¹, Guilherme Dilarri¹, Carlos Renato Corso¹. ¹Departamento de Bioquímica e Microbiologia, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Avenida 24 A, nº 1515, 13506-900, Rio Claro - SP.

ABREU, Nathália. O que a etiqueta não mostra! Os impactos socioambientais da moda tradicional. [S. l.], 2017. Disponível em: http://autossustentavel.com/2017/12/o-que-etiqueta-nao-mostra-impactos-i.... Acesso em: 8 mar. 2019.

 

HUFFPOST. Quel est l'impact de l'industrie textile sur l'environnement ?.       S.l.], 2016. Disponível em: https://www.huffingtonpost.fr/2015/11/29/impact-textile-environnem_n_866.... Acesso em: 8 mar. 2019.

ABIT. Perfil do Setor. [S. l.], 2018. Disponível em: https://www.abit.org.br/cont/perfil-do-setor. Acesso em: 8 mar. 2019.